26 Out «A gente vive no olhar do outro e precisa de morrer no olhar do outro.»

“Capelão critica a total erradicação da morte e do debate sobre esta do espaço público

Depois de 18 anos à frente da capelania do Hospital de S. João, no Porto, o padre José Nuno Ferreira da Silva assumiu sexta-feira o cargo de capelão no Santuário de Fátima, onde vai criar um centro de escuta e acolhimento e formar terapeutas capazes de responder à constatação de que a confissão deixou de ser resposta para os que sofrem. Diz que a “total erradicação da morte do espaço público” se tornou patogénica e que o facto de as pessoas recusarem encarar a morte deixará buracos biográficos irremediáveis na vida de cada um. É preciso ressocializar a morte, levá-la às escolas (…).

Escreveu que esta é a primeira geração que não tem a arte de morrer.”

«Sim, é a primeira geração da história que não tem rituais significativos para a morte, que não consegue olhar para os que estão a morrer, que não consegue fazer a integração da morte na sua vida quotidiana. Os funerais desapareceram. No outro dia, fui ao funeral do pai de um amigo, numa aldeia, e ali o funeral é um acontecimento. Vão as confrarias com os estandartes, a cruz, a aldeia toda, é a celebração da missa. Depois, no cemitério, fazem-se mais uns responsos e as pessoas ficam ali enquanto o corpo é sepultado, as mais próximas vão atirar uma mão cheia de terra. E eu pensei ‘Caraças, aqui é-se cidadão até morrer’. Na vida urbana, um moribundo já não existe. É apagado da vida social. E muito mais se for defunto.»

“Uma sociedade que não encara a morte é patogénica. O que é que há aí a fazer?”

« (…) É preciso encarar estas coisas. Quando andava a fazer pesquisas no INE e na biblioteca pública sobre a morte, uma funcionária pôs-se a chorar ao contar-me que não pôde, por razões externas ou por incapacidade pessoal, estar presente na morte do pai e da mãe. Isto deixa buracos biográficos que são fonte de sofrimento até ao fim da vida. É preciso ajudar as pessoas a estar perto de quem morre. A gente vive no olhar do outro e precisa de morrer no olhar do outro.»

“Em termos sociais, a forma como se higienizou ou se tendeu a retirar a morte do espaço de visibilidade que repercussões pode ter?”

«Há tempos, num encontro, uma professora que tinha perdido uma filha e elaborou uma tese sobre o luto em contexto escolar e a conclusão a que chegou é que tudo se passa como se nada tivesse acontecido. Com a violência que isso é. Os alunos da escola vêem um colega desaparecer e ninguém é capaz de abordar o assunto com eles. Ou um aluno perde o pai ou a mãe e uns dias depois volta à escola e tudo se passa como se nada tivesse acontecido. Já há autores que dizem que estamos a viver a primeira era de uma sociedade pós-mortal. Sociedade pós- mortal pela total erradicação da morte do espaço público e pela quimera de que o poder tecnológico de que a medicina dispõe cada vez mais anula a morte. É o fim do processo de desnaturalização da morte.»

“Há uma correlação passível de ser feita com o facto de a população portuguesa ser, no contexto de comparação com vários países, das que mais consome tranquilizantes e ansiolíticos?”

«São os maquilhantes internos, mas a maquilhagem não enche os buracos, apenas tapa. Pode haver alguma relação. As toxinas que pairam no ar decorrentes da patologia do escondimento da morte adoecem quem as respira.»

Excertos da entrevista conduzida por Natália Faria ao Padre José Nuno Ferreira da Silva – Público, 9 de Outubro de 2016, pp.10-11.




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