16 Nov Cemitérios e literatura

Um dos mais conhecidos momentos lúgubres da poesia portuguesa, se assim se pode dizer, foi protagonizado na primeira metade do século XIX por António Augusto Soares de Passos ao escrever “O noivado do sepulcro”. A poesia ultra-romântica, que Soares de Passos representou como raros, teve vida breve, mesmo que se tenha dado o caso de a agonia se ter prolongado por não poucas obras menores. Escarnecido pelos escritores realistas – por Eça de Queirós, por exemplo –, o ultra-romantismo não conseguiria fazer triunfar o gosto por poemas localizados em cemitérios. Ou neles situados em tom mais ou menos lamechas.

A poesia sempre se ocupou da morte e quase sempre despojada de morbidez. É por isso que os cemitérios de que a poesia (e a literatura em geral) continuou a querer falar nos séculos XX e XXI serviram para enaltecer a vida ou para melhor poder sobre ela reflectir. Bons exemplos disso são oferecidos por dois poetas, o norte-americano Edgar Lee Masters (1868-1950) e o holandês Cees Noteboom (1933), que dedicaram aos cemitérios obras inesquecíveis.

Em Spoon River. Uma Antologia (Relógio d’Água, 2003), que Jorge de Sena considerou uma obra-prima e um livro essencial da poesia moderna, Edgar Lee Masters dá voz aos mortos que se encontram no cemitério de uma pequena cidade rural (amálgama de Petersburg e Lewistown, onde Masters viveu) localizada nas margens do rio Spoon, um afluente do Illinois. Cada um dos mortos fala, em discurso directo, sobre a sua vida e sobre como ela se cruzou com as vidas de outros. Ou sobre as contingências que ditaram que Spoon River fosse o sítio da morada eterna.

Barney Hainsfeather (os nomes dos mortos são os títulos dos poemas) conta por que, desgraçadamente, terminaria no cemitério da cidade: “Se o comboio regional para Peoria / tivesse apenas descarrilado, talvez eu escapasse com vida; / e nesse caso escaparia deste sítio. / Mas como ardeu, eles confundiram-me / com John Allen, que foi enviado para o cemitério judeu / de Chicago, / e confundiram o John comigo. Eis a razão por que estou aqui. / Já era mau gerir uma loja de roupa nesta cidade, / mas ser cá sepultado – que horror!”

Homens e mulheres, espertos e tolos, ateus e crentes, honestos e ladrões, gente de todas as idades, de todas as condições sociais, com ocupações variadas falam dos tempos passados e, por vezes, do presente. Edgar Lee Masters sabia que, tal como escreveria mais tarde o escritor alemão W. G. Sebald no final do relato de uma visita a um cemitério da Córsega (Campo Santo. Quetzal, 2014), “não se podia prescindir de ninguém, mesmo depois de morto”. Conformados, decepcionados, indignados, irónicos, magoados, todos têm algum detalhe para reter, algum lamento para partilhar.

Como o da agora ignorada Hortense Robbins, de fama fugaz: “O meu nome costumava aparecer nos jornais diariamente / por ter jantado em tal parte / ou viajado para qualquer sítio, / ou por ter alugado em Paris uma casa / onde recebia a nobreza. / Estava sempre em jantares, em viagens, / ou a banhos nas termas de Baden-Baden. / Agora estou aqui para honrar / Spoon River, junto aos meus antepassados. / Já ninguém quer saber onde foi que jantei, / onde foi que vivi, qual o nome dos meus convidados, / ou quantas vezes fui às termas de Baden-Baden.”

Spoon River inclui ainda preocupações – como as de Emily Sparks – que a morte não dissipou: “Onde está o meu rapaz, onde está, / em que parte do mundo? / Dos meus alunos todos, aquele que mais amei? / Eu, a professora, a solteirona, a de coração puro, / que fez de todos eles seus filhos. / Mas terei de facto conhecido o meu rapaz / ao supô-lo de espírito ardente, / inquieto, num anseio constante? / Ah, rapaz, rapaz, por quem tanto rezei / em muitas horas de vigília nocturna, / lembras-te da carta que te enviei / acerca do sublime amor de Cristo? / Quer a tenhas ou não recebido, / meu rapaz, onde quer que estejas, / trabalha pela salvação da tua alma, / para que tudo o que em ti é barro ou impureza / possa obedecer à chama que possuis dentro de ti, / até que essa chama já não seja senão luz!… / Nada senão luz!”

Em vez de um cemitério, Cees Nooteboom fala de vários, localizados em diversos sítios do planeta. Foi neles que encontrou os túmulos dos seus “mortos amados”, compondo uma espécie de cemitério pessoal, um “campo-santo sonhado”. Tumbas (sem edição portuguesa) é o resultado de um vasto e notável empreendimento que consistiu em visitar a última morada de oitenta poetas e pensadores de todas as geografias e tempos, como, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade, Honoré de Balzac, Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, Bertolt Brecht, Miguel de Cervantes, Paul Claudel, Dante Alighieri, T. S. Eliot, Gustave Flaubert, Friedrich Hölderlin, James Joyce, Franz Kafka, Yasunari Kawabata, Antonio Machado, Joaquim Maria Machado de Assis, Thomas Mann, Pablo Neruda, Susan Sontag, Baruch de Spinoza, Virgilio, Oscar Wilde, William Butler Yeats. Fernando Pessoa está ausente, mas não é por não ter sido procurado. “Já não está aqui”, disse o guarda do Cemitério dos Prazeres a Nooteboom, não por inspiração bíblica, mas por não saber ou se ter esquecido que o poeta tinha sido trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos.

O primeiro túmulo que mereceu a atenção de Cees Nooteboom foi o de Marcel Proust, no cemitério parisiense do Père Lachaise. A visita, que ocorreu em 1977, no Dia dos Defuntos, foi o começo de um périplo de quarenta anos. Túmulos de poetas e pensadores (para citar o título da edição de bolso espanhola de 2009) recolhe as reflexões e os poemas de Nooteboom e as fotografias da mulher, Simone Sassen. Na introdução, que é uma admirável apologia da poesia, partilha o autor uma interrogação: “Por que visitamos o túmulo de alguém que não conhecemos?” A pergunta não ficou sem resposta: “Em algum lugar secreto do nosso coração albergamos a ideia de que essa pessoa nos vê e se dá conta de que continuamos a pensar nela”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes.

Parte deste texto foi originalmente publicado no jornal Diário do Minho, no dia 30 de Outubro de 2016, p. 2.




Sem comentários

Enviar um comentário
<h3>Critérios de publicação / Publication guidelines</h3><div class="vc_row wpb_row section vc_row-fluid profile_info grid_section" style=' text-align:left;'><div class=" section_inner clearfix"><div class='section_inner_margin clearfix'><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="wpb_wrapper"><div class="vc_row wpb_row section vc_inner vc_row-fluid" style=' text-align:left;'><div class=" full_section_inner clearfix"><div class="wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12"><div class="wpb_wrapper"> <div class="wpb_text_column wpb_content_element "> <div class="wpb_wrapper"> <h2>Critérios de publicação</h2> <p>As mensagens só são publicadas se estiverem de acordo com as seguintes normas:</p> <p> </p> <p>1. As mensagens podem ser escritas nas seguintes línguas: português, inglês, espanhol e francês;<br /> 2. Deve ser deixada uma única mensagem que não poderá ser de resposta a outra mensagem publicada anteriormente;<br /> 3. Não se publicam mensagens violentas, obscenas, difamatórias ou outras desta natureza;<br /> 4. Não se publicam mensagens de teor comercial ou publicitário;<br /> 5. Não se publicam mensagens anónimas;<br /> 6. As mensagens não precisam de ter outra indicação pessoal para além do nome de quem a escreve e qualquer citação usada deve ser devidamente atribuída ao respectivo autor;<br /> 7. EPITAPHION reserva o direito de corrigir imprecisões ou erros linguísticos que as mensagens possam conter;<br /> 8. EPITAPHION reserva o direito, em qualquer caso, de não publicar a mensagem enviada – ou de remover alguma cujo teor seja posteriormente entendido como inadequado.</p> <p> </p> <hr /> <p> </p> <h2>Publication guidelines</h2> <p>Messages should respect the following guidelines:</p> <p> </p> <p>1. Messages can be written in the following languages: Portuguese, English, Spanish and French;<br /> 2. Each user should write only one message which should not be a response to a previous one;<br /> 3. Messages with violent, obscene, defamatory or similar content will not be published;<br /> 4. Advertising or promotional messages will not be published;<br /> 5. Anonymous messages will not be published;<br /> 6. No further personal information is requested, except the true name of the person who posts a message and any quotes used must be properly ascribed to their authors;<br /> 7. EPITAPHION reserves the right to correct grammar or other linguistic mistakes;<br /> 8. In any case, EPITAPHION reserves the right not to publish a message – or to delete those which at any time may be read as inaccurate or inappropriate.</p></div> </div> </div></div></div></div></div></div></div></div></div> <div class="social-sharing ss-social-sharing"> <a onclick="return ss_plugin_loadpopup_js(this);" rel="external nofollow" class="ss-button-facebook" href="http://www.facebook.com/sharer/sharer.php?u=http%3A%2F%2Fepitaphion.com%2Fcemiterios-e-literatura%2F" target="_blank" >Share on Facebook</a><a onclick="return ss_plugin_loadpopup_js(this);" rel="external nofollow" class="ss-button-twitter" href="http://twitter.com/intent/tweet/?text=Cemit%C3%A9rios+e+literatura&url=http%3A%2F%2Fepitaphion.com%2Fcemiterios-e-literatura%2F" target="_blank">Share on Twitter</a><a onclick="return ss_plugin_loadpopup_js(this);" rel="external nofollow" class="ss-button-googleplus" href="https://plus.google.com/share?url=http%3A%2F%2Fepitaphion.com%2Fcemiterios-e-literatura%2F" target="_blank" >Share on Google+</a> </div>